Irmã Adair Aparecida Sberga

VOLUNTARIADO EDUCATIVO E TRANSFORMAÇÃO PESSOAL E SOCIAL

Quarta-feira, 26 d Setembro d 2012

O voluntariado como expressão de fraternidade em obras de caridade, não é um fenômeno novo, suas origens remontam aos primórdios do cristianismo. As Cartas de São Paulo já relatavam coletas realizadas para ajudar as comunidades necessitadas, orientação pedagógica de respeito, solicitude e amor ao próximo.
Ao longo dos séculos vão se configurando práticas diversas de ação, segundo as necessidades locais, sempre voltadas para as situações de pobreza, marginalização, calamidades e doenças. Na idade média foram as igrejas e os mosteiros que construíram hospitais para cuidar dos doentes pobres e hospedarias, ao longo das estradas, para acolher os peregrinos e os viajantes. Na idade moderna, as expressões de voluntariado continuavam presentes em associações das igrejas católicas e surgiram outras de caráter laico, de assistência pública, denominadas de cruz branca, azul e verde, que socorriam, sobretudo, os doentes, e outras destinadas a dar atendimento humanitário-assistencialista, como visita aos prisioneiros e socorro aos mais pobres, etc.
Em alguns países, este tipo de voluntariado, que merece grande estima pelo muito realizou em situações de desumanidade e calamidade, será duramente criticado nos anos sucessivos, porque não chegou a questionar a ordem social que provocava essas duras e sofridas contradições sociais. A partir dos anos 70, este voluntariado entra em crise e uma forma nova começa a emergir, especialmente em alguns países da Europa, como na Itália. Os novos tempos exigiam uma ação que fosse à raiz dos problemas e superasse os limites de uma beneficência acrítica e paliativa, e colocasse em discussão todo o sistema social. Essa década será de revisão dos modelos de ação, dos conceitos de caridade, de solidariedade, de beneficência, dos direitos e deveres da sociedade e do Estado em relação aos problemas da pobreza e da marginalização. Apela-se para a construção de uma política baseada na justiça, para uma nova cultura e uma nova prática de voluntariado. É esse o caminho e o modelo que ainda precisa ser implantado nos diversos contextos.


Voluntariado educativo

Considerando a realidade sociocultural e os muitos desafios e situações conflitivas em que o jovem vive, o voluntariado se apresenta como um espaço alternativo não só de inserção social e compromisso de cidadania responsável, mas também como uma proposta formativa que ajuda o jovem a conhecer a si mesmo e a descobrir suas potencialidades profundas, sua vivacidade e seu entusiasmo, fazendo deles dom e serviço ao outro. Por essas suas qualidades, o voluntariado é considerado relevante no setor juvenil, seja pela significatividade das suas experiências educativas seja pelo valor do seu empenho.
Muitas pessoas acreditam que os adolescentes e jovens não têm perseverança em suas ações ou vontade decidida para assumir uma responsabilidade que requer tanto empenho e desprendimento de si; que eles não têm condições adequadas para garantir um serviço que exige competência profissional, capacidade de escolhas amadurecidas e comprometidas e resistência ao sofrimento.  A expectativa neste confronto leva a crer que o voluntariado, no sentido pleno do termo, é uma tarefa de adultos, mesmo se nos últimos tempos nasceram experiências de voluntariado com tônica juvenil; que o voluntariado jovem teria sentido se fosse compreendido como um tempo de transição, um estágio para aprender as características essenciais do “espírito” e do “estilo” do voluntariado realizado por pessoas experientes. Os motivos que levaram a isso é que, quando se fala em voluntário, se pensa numa pessoa profissionalmente preparada para responder, de forma adequada e criativa, às necessidades que se impõem ao voluntário.
Diante dessa concepção, os sociólogos italianos G. Milanesi e G. De Nicolò, propuseram que o voluntariado realizado por jovem tivesse um caráter diferenciado, ou seja, que fosse um voluntariado educativo, voltado para a formação do jovem voluntário.
A especificidade desse voluntariado é possibilitar uma experiência propedêutica, preparatória, educativa necessariamente voltada para a formação integral do jovem. Essa se concretiza com mais propriedade quando existe a prestação de um serviço à comunidade ou aos mais carentes. É graças a essas experiências de solidariedade que o jovem se capacita. Assim, esse tipo de voluntariado que é de grande auxílio na luta contra a pobreza e marginalização torna-se, antes de tudo, um lugar de construção da identidade do jovem e de educação sociopolítica.
Portanto, este voluntariado jovem se constitui a partir de experiências com fisionomia própria, com conteúdos e métodos alternativos, elaborados segundo as necessidades de formação e crescimento do jovem, tanto em nível pessoal quanto social. Tendo como característica a centralidade no educativo, enquanto mentalidade educativa e método educativo (protagonismo), é um espaço finalizado não a preencher o tempo livre do jovem, mas, com a riqueza de seus princípios e valores, a educá-lo para que seja um cidadão ativo e responsável no social e ao mesmo tempo capacitá-lo em competências humanas, éticas, cognitivas e técnicas. É um voluntariado de ação e reflexão, que colabora no desenvolvimento do senso crítico, na conscientização sobre os direitos humanos e sociais, no respeito às diferenças culturais e no testemunho e vivência da solidariedade.
Como seu enfoque é o educativo, é necessário se perguntar: o que é educar hoje, no contexto em que estamos numa mudança de época? A educação é um termo “antigo” e sempre novo, provém da palavra educere que significa tirar para fora, desenvolver algo que pode ser interpretado como a descoberta de disposições originárias que cada pessoa ou cada cultura já tem em si mesma. Educar é dar condições e meios mais idôneos para garantir não só que emirjam na pessoa suas possibilidades, mas também a conscientização de que as possui e ainda a necessidade de orientá-las no seu aprimoramento.
Dentro dessa dinâmica se compreende que o voluntariado educativo é uma proposta que privilegia os recursos e energias dos jovens que precisam ser orientadas e que, uma vez despertadas, se tornam um rio de possibilidades, um modelo propositivo que contagia, envolve e cativa energia de outros jovens.
Por isso, o voluntariado juvenil baseia-se em princípios que encontram a sua legitimação na educação, tornando-se um lugar de crescimento pessoal, com capacidade de autocrítica, e uma maneira mais consciente de viver a própria vida, por meio de uma doação às causas humanitárias.


Voluntariado e transformação pessoal e social

 Diante da compreensão do valor da atividade educativa na vida do jovem, muitas escolas, entidades e centros de voluntariado têm fomentado propostas de formação, com o objetivo de desenvolver competências no jovem, de inseri-lo no contexto social e, acima de tudo, de ajudá-lo a adentrar no mais íntimo de si mesmo para desvendar o que lhe traz a verdadeira alegria, o que o faz sentir satisfação, realização e ser propositivo socialmente. Neste sentido, o voluntariado é um caminho seguro que leva o jovem a adentrar em sua “alma”, onde se ancora o mundo dos valores e é ai que está o sentido pleno da vida. O voluntariado é uma via para isso, portanto é um caminho de conhecimento de si e de realização. É entrando no mundo da alma, “lugar” reside a originalidade plena de cada ser, é que se encontra o sentido pleno da vida. Por isso, o voluntariado é um meio educativo, que quer levar o jovem para conhecer a si mesmo e fazer desabrochar o mundo dos valores que está nele, mas também é o meio de abertura para o social, por isso o voluntariado também é um condutor de transformação social.
A Rede Paulista de Centros de Voluntariado define bem estes aspectos e por isso torna-se útil aproveitar de seus conceitos e idéias, expressos a seguir:
“O Voluntariado é uma oportunidade de exercício de cidadania e solidariedade. Todos ganham quando alguém se dispõe a apoiar uma causa. Ganha quem recebe, seja um projeto ou uma organização social, pois tem seus recursos ampliados e otimizados, ganha toda a sociedade que reconhece no cidadão o seu grande potencial transformador. E, principalmente, ganha o voluntário, que doa seu tempo, trabalho e talento que percebe que para viver numa sociedade mais justa é preciso participar. E o voluntariado é a oportunidade para que a pessoa atue na sociedade promovendo a transformação social. O voluntário nos dias de hoje não se satisfaz apenas atuando em campanhas assistencialistas, ações essas importantes, mas que limita a sua participação na busca de soluções para os problemas sociais. As pessoas buscam participar de projetos ou apoiar projetos ou organizações sociais que são bem planejadas que se preocupam com a causa e provoquem a mudança de paradigmas. Em uma organização social não há um trabalho voluntário com resultados positivos que não seja decorrente do comprometimento por parte do voluntário e de uma boa gestão do programa de voluntários. É uma via de mão-dupla. O comprometimento passa pelo entendimento de que toda ação vem acompanhada de conhecimento, transparência e amor pelo se faz. ‘Fazer o que se gosta’ é fundamental para a realização do trabalho voluntário, desde que seja coerente com a motivação. Cada pessoa tem sentimentos e valores próprios, construídos ao longo da vida que podem representar uma motivação. Por outro lado, cabe a organização social valorizar, estimular e reconhecer o voluntário para que ele se sinta, também, motivado a continuar atuando. Levar cada cidadão que deseja participar, a questionamentos, tem sido o objetivo dos Centros de Voluntariado. O que cada um gostaria de fazer? Quais os seus valores pessoais? Que habilidades ou talentos deseja oferecer? Qual a sua disponibilidade de tempo? Com que público gosta de atuar? Em que área quer atuar - na saúde, assistência social, educação, cultura, esporte, lazer, cidadania, defesa de direitos ou meio ambiente? Deve refletir como irá atuar, individualmente, participando de projetos sociais ou em grupos de trabalho, em organizações sociais ou em comunidades? Realizar atividades à distância pela internet ou pelo telefone? Não importa o quê ou o quanto cada um pode doar de tempo, trabalho e talento, mas o comprometimento com o que se faz é que irá determinar a diferença do que realizamos em prol da atividade voluntária.”


Considerações finais

Ser voluntário é partilhar o que se tem de mais precioso: tempo, disposição, conhecimentos, habilidades, respeito e amor. O voluntário é uma pessoa aberta para o mundo dos valores e por isso sente vontade de ajudar, de se doar e de melhorar a qualidade de vida da comunidade. Para o voluntário, as pessoas são significativas e plenas de dignidade e por isso sua vida se torna significativa para os outros. Por isso, há uma dependência recíproca, uma intersubjetividade, na qual se dá o encontro entre o útil e o agradável, entre a dor e a cura, entre o serviço-doação e a realização.
O voluntariado promove a formação da pessoa, desenvolve seu potencial, alimenta a autoestima, capacita para a resolução de problemas, enriquece a virtude da disponibilidade e atenção para com o outro e ajuda a pessoa a entrar em um nível mais elevado quanto a sua própria existência.
Aliado a isso, o voluntariado nasce desse encontro da solidariedade com a cidadania e alicerça as bases da democracia quando alia solidariedade, engajamento cívico e comprometimento com a transformação social. Além disso, ação voluntária não é só disponibilidade e doação, é também abertura a novas experiências, oportunidades de aprendizado, favorecimento de novos vínculos de interação e vivência comunitária.
Este novo conceito de voluntariado que começa a surgir na Europa a partir dos anos 70 e, no Brasil a partir dos anos 90, com o surgimento dos Centros de Voluntariado, propostos pela Comunidade Solidária, que foi fundada pela Dr. Ruth Cardoso, ainda não é tão visível e valorizado. Estamos em tempo de mudança de época e é fundamental incrementar nos jovens a formação para o voluntariado e aproveitar o potencial de solidariedade latente na sociedade para criar mais iniciativas de voluntariado.
As escolas e universidades são esses espaços privilegiados de educação e preparação do jovem para a participação social atuante e transformadora. São muitos os estudantes envolvidos, mas é preciso atrair mais, para que façam a diferença no mundo e colaborem efetivamente para um futuro melhor, justo e sustentável. Participar de ações e projetos sociais é agregar valores, conhecimentos e competências, vivências fundamentais para a formação pessoal e também profissional. Quem comprova com seu currículo ter participado de projetos sociais demonstra sua disponibilidade e interesse para atuar na solução de problemas do seu entorno. Além do mais, toda colaboração em organizações sociais propicia experiências de proatividade e desenvolvimento pessoal.

 

Referências Bibliográficas

CVSP - Rede Paulista de Centros de Voluntariado.  “Textos e Reflexões”. São Paulo: 2004.
SBERGA, Adair Aparecida. Voluntariado jovem: construção da identidade e educação sociopolítica. São Paulo: Editora Salesiana, 2001.
_______ Voluntariado Educativo. São Paulo: Editora Fundação Educar Dpaschoal – Faça Parte  - Brasil Volutário, 2002.